a adaptadora de vale tudo não sabe escrever novela
eu estava assistindo ao capítulo de “Vale Tudo” em que Consuelo flagra o filho se agarrando com Aldeíde e após notar que metade do capítulo era justamente sobre as consequências do flagra, momento da novela que não tinha nenhuma relação com o que realmente acontecia na trama principal, eu me vi dizendo: “meu deus isso é um capítulo filler”.
e isso é um problema. porque novela não tem capítulo filler. pode ter barriga, mas não capítulos onde nada acontece feijoada.

geralmente, capítulo filler você encontra em séries de tv (ou animes, quem não se lembra do clássico episódio de Dragon Ball Z onde Goku e Piccolo aprendem a dirigir?), e são capítulos onde realmente nada acontece ou nada se estabelece para o futuro da história. são respiros, ou mesmo momentos de leveza para o andamento da série – para nunca mais voltar. novela não tem isso. mesmo em capítulos leves, simples, onde aparentemente nada acontece, algo deve acontecer para o andamento da trama, ou ao menos para a construção da psiquê dos personagens.
geralmente novela tem “barriga”, onde realmente nada acontece, mas você tem a sensação de que a pessoa que está escrevendo busca uma forma de fazer acontecer. pelo menos a trama principal está caminhando, mesmo que a passos de tartaruga.
só que “Vale Tudo” não é série. não é anime. é novela, e uma das melhores de todos os tempos* em sua versão original. não é pra ter capítulo filler. pode ter essa trama secundária (que realmente aconteceu em 1988), mas não dominar um capítulo enquanto a protagonista fica de semifigurante ou ouvindo as lamúrias do rascunho de namorado que ela tem.
enquanto Consuelo treta com a amiga, Raquel deveria estar em conflito com Odete, sendo a protagonista icônica que ela é. a adaptadora transferiu todo o conflito da personagem para Maria de Fátima e para a nova vilã, Ana Clara.
(mas isso é pauta para outro post)
qual seria a razão?
eu confesso que achava que esse tanto de filler (que não é de hoje) era um skill issue da adaptadora, que ela realmente tinha limitações no seu processo criativo – mas eu tenho uma opinião mais bem acabada sobre o tema:
a adaptadora de “Vale Tudo” não sabe escrever novela.
manu days tem experiência larga em séries (as duas temporadas de “Justiça”, produtos mais curtos como a minissérie “Ligações Perigosas”), mas veja como ela se perde por completo em novela. “Amor de Mãe” onde a vilã é a vida (eu já vejo isso todo dia no jornal, moça) e como a novela parecia meio solta, mais reflexão do que o punch do novelão, do clichê dramatúrgico. até aquela fotografia meio sépia parecia de uma série da HBO. “Vale Tudo”, por sua vez, é cheia de capítulo sem recheio para depois o negócio correr – e sempre corre quando ela usa como base o texto original.
não é porque você sabe escrever roteiro que está pronto para escrever novela.
novela precisa, além da compreensão de que é um produto longo, entender que é um produto de objetivos distintos que os de uma série. é entreter, atrair, impactar, viciar você para ver o próximo capítulo no dia seguinte. é tratar esse produto com respeito e carinho, com reverência, incluindo no trato de quem protagoniza, de quem é a mola mestra da trama, de quem faz a roda girar.
porque a roda de “Vale Tudo” não é sobre Odete Roitman vs o resto. não é a rivalidade entre duas faces de uma mesma moeda. é sobre duas visões distintas de mundo, que se refletem em Odete e Raquel Acioli.
mas a adaptadora nunca foi capaz de entender isso, e de realmente atualizar a novela para as complexidades do Brasil de 2025. é por isso que, de filler em filler, de texto ruim em texto ruim, “Vale Tudo” parece um saco de salgadinho com 80% de ar e 20% de conteúdo – conteúdo esse com adicional de sódio e gordura saturada.
*P.S: eu só coloquei “uma das melhores (novelas) de todos os tempos” porque a minha favorita é “Roque Santeiro”



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