que sabor de brasil

imagine que você recebe uma missão de sua mãe antes de morrer: acender três velas para os santos de devoção dela. além disso, você também tem uma outra missão: conhecer o seu pai e questionar porque ele abandonou a sua mãe.

só que, quando você chega na cidade natal do seu pai, um local ermo e vazio, falido, além de ser mal recebido por sua avó e por praticamente todo mundo que mora na cidade, você ainda fica sem saber se o pai está vivo ou morto. ah, e precisa ficar em algum lugar, e o único refúgio que sobra é a cabeça de um santo caída, separada do resto da estátua.

esse é um resumo bem resumido de “A Cabeça do Santo” romance de Socorro Acioli que eu li para o Clube do Livro do podcast que eu acompanho, o Entre Sumários Cast (que também tem um clube de apoiadores)

é um romance com cara de Brasil, jeito de Brasil, e que mesmo se passando no interior do Ceará, tem características muito universais da vivência das cidades do interior do nordeste: o catolicismo popular, as questões de cidade pequena, aquele clima de que todo mundo se conhece…

como alguém que sempre passou o São João durante a infância e parte da adolescência em uma pequena cidade do sertão da Bahia, eu senti uma identificação instantânea com o cenário – apesar de Queimadas estar a vários, muitos quilômetros de onde se passa “A Cabeça do Santo”. incluindo a sensação de que a cidade também é um personagem: você sente falta dela quando termina a história e torce para que tudo dê certo com Candeia ao final do livro.

mas o que acontece dentro da cabeça de Santo Antônio?

então, acontece que Samuel se torna uma espécie de milagreiro na região porque ele ouve tudo dentro daquela cabeça: as mulheres da cidade pedindo casamento, um amor, um casamento com aquele crush da cidade, bem como uma voz feminina que canta músicas e que o encanta.

além disso, ouvir essas preces e pedidos faz com que Samuel descubra que essa é uma oportunidade de ganhar dinheiro, com a ajuda de Francisco, um garoto que mora em Candeia e conhece a todos – e com seus milagres (que ele faz dar certo), acaba fazendo com que a cidade ressuscite, ganhe vida, receba romeiros e volte a ser economicamente viva.

porém, nem todo mundo fica feliz com essa mudança, em especial o prefeito da cidade, que estava contando com a falência da cidade; e uma das moradoras da cidade, que é evangélica e acha que tudo é do demônio – incluindo o santo. esse conflito, que é maior do que as próprias buscas pessoais de Samuel, dá a “A Cabeça do Santo” uma temática social muito bem vinda, e extremamente atual, bem como a vivência popular daquela cidadezinha no interior do Ceará, em especial as experiências do catolicismo popular, em que os dogmas da igreja católica se misturam com simpatias, com ditos; ao mesmo tempo em que também faz críticas muito importantes a hipocrisia religiosa, a ganância, a destruição do que é popular e do que é cultural em nome do dinheiro.

como eu disse, tudo muito atemporal, muito Brasil.

são temáticas que me lembraram de Dias Gomes, especialmente “O Pagador de Promessas” e a novela “Roque Santeiro”, um autor que entendia de Brasil e conseguia traçar paralelos entre o que ocorria em suas tramas com as contradições do país – fosse de forma hiperbólica, ou com elementos metafóricos. é a pequena cidade que ressurge social e economicamente por causa de um “milagreiro”; a mistura entre religiosidade e cultura popular; a mentira que se torna verdade quando um dos pedidos da mulheres e torna real; o conflito entre o “progresso” e a “tradição” arraigada na cultura popular… mas existe no livro algo igualmente poderoso: como essa busca por felicidade, por amor, por parte dessas mulheres, evoca também no próprio Samuel. ele é um homem que não acredita em nada, e que viu quem acreditava alguma coisa perecer por conta dessas crenças, mas ele começa a crer que tem alguma coisa muito maior, mesmo que para isso, ele precise usar essa crença para ganhar dinheiro.

“A Cabeça do Santo” é um livro muito fluido, de narrativa ágil – só que, em muitos momentos, é importante ter atenção, porque em um momento, você descobre que está lendo algo no passado – mas não ocorre aviso sobre isso, nem aspas, nem itálico; o que torna essa história igualmente algo fantástico, longe da compreensão lógica, também na sua leitura.

o que eu achei de “A Cabeça do Santo”?

eu particularmente gostei muito do livro, incluindo o seu final. consegui me manter ligada, torcendo para Samuel cumprir sua missão, saber as respostas que ele buscava tão desesperadamente, além de encontrar a voz. mas também torci para que a cidade continuasse existindo, resistindo, que não fosse destroçada por hipocrisia religiosa, pelo poder do dinheiro, que ela continuasse viva e feliz com suas personagens.

uma das leituras mais legais que tive no ano.


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