e olha que o ano nem começou direito
basicamente são duas horas e trinta minutos da versão estendida de Aretha Franklin falando

(e tem gowns que nem são tão bonitos assim…)
o filme como filme em si é muito ruim. Muito estilo, bela fotografia, cenário que em alguns aspectos, em especial na parte da propriedade Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), parece ter vindo diretamente do livro. Mas é somente isso. A direção de atores é muito esquisita, com variações muito visíveis de boas atuações e péssimas atuações – meu MVP de longe é Hong Chau como Nelly. Tem ainda uma busca constante de choque pelo choque, com imagens que parecem indicar alguma coisa envolvendo desejo, mas que não passam mensagem alguma. Quer ser sensual, erótico, bodice ripper-y, mas o resultado é anódino. Talvez um reflexo dos desejos da própria diretora, que com assim como em Saltburn, não sabe trabalhar com desejo, apenas gosta de chocar para gerar “conversa, discurso”, mas sem efeito nenhum.

como filme adaptado de uma obra literária consegue ser pior ainda. Não dá para pensar em O Morro dos Ventos Uivantes como uma história de amor, Heathcliff não é um herói romântico. É um homem atormentado que é rejeitado por todos e marginalizado justamente pela cor da sua pele. Quando se tira esse elemento dele, que é o que vai guiar seu amor, sua obsessão e seu desejo de vingança, tira-se toda força da história. Para completar, a escalação do Jacob Elordi é até boa, se ele fosse Hareton, se o filme fizesse o que deveria ser feito, além de escalar o ator certo para Heathcliff (Shazad Latif, que interpretava Edgar Linton, estava LOGO ALI) colocar também a segunda parte, que mostra toda a degradação mental e moral de Heathcliff.

Pior: quando o filme deixa de lado toda a história do livro e tenta trabalhar com o que está dentro do universo do filme, ele acaba se contradizendo. Tudo o que leva à vingança poderia ser resolvido exatamente dentro daquele universo, tanto que todas as emoções os exageros e os dramas me parecem apenas drama. eu não confio em nenhum sentimento dos personagens, e me sinto completamente alienada de tudo que está acontecendo na história. Além disso, a escalação de Margot Robbie como Cathy adulta me tira completamente do eixo da história. Fora do tom, com a aparência muito madura para uma jovem com os hormônios à flor da pele, com exageros e arroubos românticos que mais parecem chilique, e não como um traço de personalidade – como aparece no começo da história quando os personagens são adolescentes e se parecem mais com os personagens que a gente encontra no livro. (aliás, eu só sinto essa familiaridade com a história no começo, quando os protagonistas são adolescentes, porque no livro a maior parte dos personagens têm até 18 anos, tanto na primeira quanto na segunda geração)
Tirando o fato de que Cathy loira (a mãe, não a filha) também não faz sentido – porque ela ser morena e se sentir inferior à loira Isabela também faz parte da psiquê da personagem
é assustador como a diretora não entendeu a fonte que está adaptando. E por isso, na busca pelo choque pelo choque e por tirar tudo aquilo que torna O Morro dos Ventos Uivantes uma obra forte e intrigante até hoje, você vai encontrar personagens estragados. O que fizeram com Edgar? No que transformaram Isabela? É tudo muito ruim, que nem mesmo belos vestidos – exceto pela roupa que parece um bombom de casamento usada por Margot Robbie – conseguem disfarçar. É um péssimo filme, uma adaptação horrorosa, a tal ponto que em alguns momentos eu achava que estava acompanhando a adaptação de O Primo Basílio, de tão ruim que estava, de tão distante do conteúdo original e de tanto que a diretora detesta pessoas pobres. Deu para ver isso das mudanças que foram feitas especialmente na personagem Nelly, que parecia basicamente uma versão britânica de Juliana de O Primo Basílio.
É melhor você assistir a esse filme no streaming e não gastar dinheiro nem pipoca. Emily Bronte com certeza tá se revirando no túmulo.
Você pode encontrar essa resenha também no meu Letterboxd.



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