de “satânico” não tem nada

publicado em 17.01.2023

OBS: eu acabei revendo o filme nesta segunda-feira, e minhas opiniões continuam extremamente parecidas com o que eu escrevi naquela época. tem uma ou duas atualizações com observações específicas, mas o recheio da resenha se manteve. ah, e vou sim voltar a fazer a maratona

Pôster original de "007 contra o Satânico Dr. No", mostrando o personagem James Bond à esquerda, e à direita, as quatro personagens femininas que aparecem no filme.
agora que eu reparei… todas as mulheres do pôster realmente aparecem no filme

eu tomei uma decisão muito séria no começo do ano (observação atualizada: em 2023, mas estou retomando minha missão em ’26): ASSISTIR A TODOS OS FILMES DA FRANQUIA 007.

confesso que eu só não vi “Octopussy”, “Licença para Matar” e o filme mais recente; então essa é a oportunidade de rever filmes que eu gosto, mudar de opiniões ou sedimentá-las — além de assistir com dois olhares: um, acompanhando as tramas e pensando no caráter de entretenimento de um bom filme de James Bond; dois, fazer uma análise mais crítica, algo como “olha, isso aqui não funcionaria em 2023, hein?”.

eu comecei com “007 contra o Satânico Dr. No” (1962), o primeiro filme da série, que é mais um filme de espionagem com algumas cenas de ação do que o contrário. você não vê os gadgets do Bond ainda, e sim algumas relações canônicas, como o banter com Moneypenny, as conversas com M (que aqui funciona apenas como o “avatar do chefe”, e não uma personagem tridimensional como Judi Dench nos filmes a partir de Pierce Brosnan — e mais profundamente na Era Craig), e alguns pontos interessantes do Bond como uma pessoa normal: ele pega o chapéu pra ir ao trabalho, ele tem um apartamento… ele não é a “manifestação viva do destino” como Ethan Hunt, ele é um cara normal.

(só vemos isso muito pouco antes da Era Craig: em raríssimos momentos em um dos filmes do Roger Moore — se não me engano, é em “Somente para Seus Olhos” — e na única aparição de George Lazenby como 007)

o filme, obviamente, funciona muito bem porque a escolha do Bond é certeira: Sean Connery com sua altura impositiva e ar de estivador do porto não é exatamente o que se espera de um agente secreto elegante e suave (um dos produtores do filme chegou a fazer um intensivo de “elegância” com o cidadão, e deu certo haha), mas ele é tão bom nesse negócio que você ignora tudo porque sabe que se ele olhar duas vezes pra você, gamou.

eu AMO o Bond do Connery, não apenas por ser o blueprint, mas também porque ele tem a elegância, um humor irônico e um je ne sais quoi, uma atitude meio debonair de quem tem muita confiança na própria imagem e na personalidade. além de ser muito inteligente e dedução rápida.

Ator Sean Connery como "James Bond" no filme de 1962
até as figurantes ficam olhando mais que alguns segundos para ele depois que o moço sai de cena

mas vamos à história: James Bond é um agente secreto britânico que é chamado para investigar um crime na Jamaica — a morte de um representante do governo. se você for safo, ler nas entrelinhas e olhar no Wikipedia, vai descobrir que quando o filme foi gravado (em locação, vale ressaltar), a Jamaica era colônia inglesa. o filme foi lançado após a independência do país; mas historicamente falando, James Bond basicamente está lá representando a metrópole numa colônia do combalido império britânico.

let that sink in.

antes que surjam reclamações anacrônicas sobre o filme, nenhum filme de James Bond entre 1962-1995 está apartado das questões geopolíticas da Guerra Fria. nenhum. (senão, não existiria “O Espião que me Amava”…). e mesmo após 1995, você percebe que os filmes do Bond são sempre sobre um homem que não sabe se estabelecer em um mundo que não tem mais espaço para ele porque tudo que Bond defendia, representava, acabou. a Guerra Fria acabou, o império britânico ruiu. ele é um dinossauro, como Judi Dench falou tão habilmente em “GoldenEye”.

voltando ao filme, Bond vai à Jamaica e descobre que não é apenas isso de estranho que tá rolando na ilha: tem outro pedaço de terra que não pode ser acessado pelos locais porque aparentemente pertence a um carinha chamado Dr. No, e ele é perigoso — bem perigoso. o interessante é que você passa meio que 80% do filme sem ver a cara do cidadão, o que faz o crescendo do vilão às ocultas, mesclado com as ameaças dos capangas dele que podem estar em qualquer canto de Kingston, bem reais. stakes are high, galera.

problema é quando aparece Dr. No, interpretado por Joseph Wiseman, você fica meio “ahhh… é esse cara o vilão?” (sem contar com o fato do personagem ter origem asiática, chinesa no caso, e ele ser branco.).

Imagem do ator Joseph Wiseman, interpretando Dr. No no filme.
zero medo desse homem

(esse filme tem vários casos de yellowface que nem vou comentar)

até chegar a Dr. No, são vários momentos de pura investigação e uma ou duas cenas de ação no filme. é bem bacana ver um filme que no fim, é de “ação”, onde a ação é pontuada e o foco é na investigação, nas double entenders, na mente do protagonista tentando resolver as situações de maneira rápidas; além das escolhas técnicas para tornar o filme mais ágil, a exemplo dos efeitos que dão ênfase aos socos e chutes, e as mudanças no ritmo mesmo — quando a ação se concentra na ilha dominada por Dr. No, a coisa fica mesclada entre a tensão digna de um thriller e uma vibe aventura na floresta, com algumas doses de humor. você não cansa da história, e os diálogos também ajudam manter a trama sempre ágil.

sobre as Bond Girls, apesar de vermos Bond se envolver com três mulheres no filme (Sylvia Trench, Miss Taro e Honey Rider — os nomes, meu pai!), a namorada dele no filme, digamos assim, é Honey Rider, vivida por Ursula Andress (e literalmente dublada na versão original do filme). ela não é exatamente uma potência atuando; e pior, a personagem não tem lá muito traço de personalidade ou desenvolvimento… algo que se repete em 90% dos filmes do James Bond exceto por muito poucos.

Imagem dos atores Ursula Andress e Sean Connery em cena no filme "007 contra o Satânico Dr. No" (1962)
nada no diálogo que eles travam nesta parte do filme faz sentido

mas no geral, eu gosto muito desse filme: feito em locação (amo), o ritmo ágil para a época, além dos aspectos canônicos aparecendo pela primeira vez (o “Bond, James Bond”, o “martíni batido, não mexido”…), e aceito até mesmo a abertura meio sem graça — na verdade, bem a cara do começo dos anos 60. o legal mesmo é ouvir a trilha sonora original do John Barry (ou do Monty Norman?) e começar a sentir o impacto de algo que provavelmente vai mudar nossas vidas… há mais de 60 anos.

o próximo post, se tudo der certo, será sobre “Moscou contra 007”, esse sim um dos meus favoritos de toda a franquia. e vocês saberão o porquê (ou não, vá que eu deteste nessa re-assistida) em breve!


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