só um levou álbum do ano…
eu me vi protelando muito para falar sobre o último álbum do Harry Styles, “Kiss All the Time. Disco, Occasionally.”, porque eu realmente quis muito gostar e não consegui.

eu não sou uma fã massiva do trabalho do britânico, mas o fato é que eu gosto muito do som dele – em especial quando ele fazia essa mescla interessante de pop e rock com referências visuais e de postura no palco dos astros dos anos 70, com uma sensibilidade interessante, e que gerou “herdeiros”, digamos assim (olá Benson Boone, olá Sombr!); mas esse novo material, com uma pegada bem mais dance, com algumas referências disco, realmente não me pegou. seja porque em alguns momentos pareciam os momentos mais genéricos do Coldplay (banda que eu não gosto, para dizer o mínimo), a sensação de que as letras eram sobre o mesmo tema, ou porque o material é recheado de fillers, “Kiss All the Time. Disco, Occasionally.” não me pegou de verdade… e eu queria muito ter gostado (particularmente, eu gosto bastante do terço final do álbum, com “Pop”, “Dance no More” porque como vocês sabem, linha de baixo retrô is my weakness – e que poderia ser o primeiro single sem estranhamento algum; e “Paint By Numbers”)
(talvez minha falta de simpatia pelo verdadeiro lead, “Aperture”, tenha afetado profundamente minha audição)
só que eu enrolei muito para fazer essa resenha e até esqueceria se não fosse o Tik Tok com vários posts falando sobre a turnê meio esquisita do rapaz, os looks, algumas discussões sobre “ausência de capital cultural”, e mesmo com singles no top 10 (o lead foi #1 na Billboard), a sensação de “esse é um álbum lançado” e não uma ERA; aí, me vi numa espécie de dejà vú. porque eu já ouvi essa história antes. eu já acompanhei uma história parecida, há quase dez anos, com consequências sentidas até hoje.
quando justin timberlake decidiu fazer um álbum country
você se lembra de quando Justin Timberlake decidiu ir pra floresta e fazer um álbum mesclando country, pop, R&B, dance, e deu “Man of The Woods”? aposto que nem você se lembra desse material, que eu só fui me recordar da existência quando surgiu a ideia para este post.

até recuperei o que escrevi sobre MOTW no distante ano de 2018 nos arquivos do meu falecido blog antigo, o “Duas Tintas de Música”, e o resumo daquele material era Justin Timberlake indo atrás do “wild west”, colocando banjo em todo canto, letras bem abaixo, um álbum longo e o uso desperdiçado de Chris Stapleton. e, de certa forma, o álbum novo do Harry Styles parece ter a mesma estranha lógica do MOTW: dois artistas no auge artístico fazendo algo diferente na carreira, com resultados de bons para mistos junto a parte do público e parte da crítica, estranhamento visual e conceitual e a sensação de que tanto Harry quanto Justin parecem ter entrado em uma encruzilhada artística, considerando suas posições (JT em 2018, Styles em 2026) dentro do panteão pop masculino.
mas qual é a diferença entre os dois?
a primeira diferença é que o álbum anterior do JT não levou álbum do ano no Grammy, e “Harry’s House” sim, o que tornou o pós do Harry um pouco mais desafiador.
depois que você chega ao topo, o que mais você pode fazer, como um artista pop da prateleira de cima?
você tem dois caminhos – o caminho Adele/Billie Eilish, que é evoluir o som a partir do que você já é conhecido, sem grandes rompimentos (apesar de que Billie deu um salto mais arriscado, mas sem deixar de ser ela, sem perder a voz, as canetadas, a personalidade artística); ou o caminho Bruno Mars, que é esperar uns 10 anos pra lançar seu material solo, mas enquanto isso, trabalhe com quem te interessa e se aprofunde artisticamente no que você curte.
Harry tinha essas duas chances – e considerando que ele sempre foi bem estratégico, eu acho que ele poderia seguir o primeiro caminho (porque ele já vinha fazendo isso, há uma lógica musical de continuidade entre o “Fine Line” e o “Harry’s House”), mas com o hiato porque tinha a carreira de ator. não alienaria a fã-base, manteria os fãs casuais, e não perderia o tal capital cultural. eu acho que o percurso deu um descaminho porque foi um rompimento muito brusco.
agora, se o foco fosse essa mudança de som, seria mais estratégico se ele tivesse, sei lá, lançado um single mais dance entre eras, porque não haveria choque. tal e qual o que aconteceu em “Uptown Funk” com Bruno Mars, então não houve um choque absurdo quando chegou o “24k Magic” porque ele já vinha testando o som antes – o espanto foi nas letras mesmo.
o rompimento do Timberlake foi ainda mais brusco, porque o grande single entre eras dele foi a música da trilha sonora de Trolls – aí, o lançamento seguinte era uma faixa chamada “Filthy” de um álbum que meio que não sabia bem o que queria ser. os fãs podem achar massa, mas o público casual vai estranhar.
o que harry styles precisa fazer para não ir para o lado errado dessa encruzilhada?
boa pergunta… eu não sei, mas tenho ideias.
um, dar um passo para trás e voltar ao básico, ao seu estilo, e esperar que as pessoas comprem de volta o “velho Harry”. não deu lá muito certo para Timberlake por n razões, incluindo que ele não era mais o “Presidente do Pop” quando lançou o último álbum (aka não era mais imune ao flop), tinha passado por um Halftime Show criticadíssimo, e ainda tinham as discussões sobre apropriação cultural e os problemas que ele teve com Britney e Janet que entraram em discussão nos últimos anos.
além disso, o álbum era ruim também, parecia algo de 2012
(pode-se até levar em consideração o fator pressão estética envolvendo o próprio Timberlake, que foi um dos grandes sex symbols dos anos 2000 – ele mesmo disse que trouxe o sexy de volta – mas hoje é visto de uma forma pouco simpática, sem ser considerado esteticamente interessante porque envelheceu… ou não envelheceu como a convenção social esperava essa passagem de tempo – com charme, elegância, feito um bom vinho)
Harry não tem isso – aquela polêmica de “Don’t Worry Darling” pode ter afetado a carreira dele de ator, mas não creio que tenha respingado em sua carreira de cantor. então será mais fácil fazer esse movimento – claro que explicando “ah, era uma experimentação, valeu, foi bom, adeus”
dois, tem a segunda possibilidade: ir nesse caminho sem olhar para trás. não sei se seria a melhor decisão (considerando que o “Kiss All the Time. Disco, Occasionally.” não é exatamente BOM), mas seria honesto e corajoso. assumir suas decisões, seguir em frente artisticamente com elas.
bem, a turnê tá rolando, busca alta de ingressos com direito a shows extras (Timberlake nunca foi afetado em suas turnês pelo desempenho dos últimos álbuns), então pode ser que esse álbum, essa conversa toda, seja apenas um desvio de jornada. assim como pode não ser.
muito curiosa pelos próximos capítulos.




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